IA Sem Vazamento · Série âncora · peça 3 de 12

Anonimizar uma peça em 4 minutos: o método em 5 passos

Cinco passos, na ordem que importa. Identificar antes de editar evita o erro mais comum: substituir no automático e deixar passar o dado do meio da peça.

Anonimizar uma peça em 4 minutos: o método em 5 passos

Você já sabe o que não colocar no prompt (se leu a peça 2) e já entendeu o que a Res. 615 permite e proíbe (peça 1). Agora vem a parte prática: como anonimizar sem pular etapa.

A anonimização não é burocracia. É o que separa o uso profissional do uso imprudente.

Antes do método: anonimizar não é tirar o nome

Esse é o erro que faz o resto do trabalho não valer nada. Tirar o nome da parte resolve o identificador óbvio e deixa de pé o que a proteção de dados chama de quase-identificadores: informações que, sozinhas, não dizem quem é ninguém — e que, combinadas, dizem.

Um exemplo inteiramente fictício. Você tira o nome, o CPF e o número dos autos, e deixa no texto: servidora pública, 42 anos, doença rara, afastada desde março, comarca pequena. Nenhum desses dados é identificador. Juntos, numa cidade de vinte mil habitantes, são um endereço.

É por isso que o passo 4 do método abaixo — o teste de reidentificação — não é firula. Ele é o único passo que olha para o texto do jeito que um curioso olharia.

O método em 5 passos

A ordem importa. Identificar antes de editar evita o erro mais comum, que é substituir no automático e deixar passar o dado do meio da peça.

Passo 1

Leia antes de colar

Abra o texto e leia uma vez só para identificar: nomes, CPFs, endereços, números de processo, dados de saúde, crianças. Sublinhe mentalmente (ou marque com marcador se for físico). Não edite ainda — só identifique.

Passo 2

Troque os identificadores

Nome vira "[Parte]", CPF vira "[Documento]", endereço vira "[Endereço]", número dos autos vira "[Autos]". Um Replace All no editor resolve a maior parte. Média de 5 a 8 substituições por página.

Passo 3

Varredura de dado sensível

Passe o olho procurando: saúde, laudo, criança, violência, biometria. Se encontrar, substitua pela categoria. Exemplo: "paciente apresenta quadro de ansiedade" → "[Diagnóstico]".

Passo 4

Teste de reidentificação

Leia o texto anonimizado e pergunte: com isso mais 2 minutos de busca, alguém descobre quem é a parte? Se a resposta for sim, volte ao passo 2.

Passo 5

Guarde o original fora do modelo

O original fica no sistema processual. No prompt vai só a versão limpa. Sem exceção — inclusive quando "é rapidinho".

A tabela de substituição

Vale deixar aberta num arquivo à parte. O ponto não é decorar: é usar sempre o mesmo rótulo, para o texto continuar legível depois de limpo.

O que aparece na peçaVira
Nome de parte, testemunha, terceiro[Parte], [Testemunha], [Terceiro]
CPF, RG, CNPJ, título, matrícula[Documento]
Endereço, bairro, comarca, cidade pequena[Endereço], [Localidade]
Número dos autos, número de protocolo[Autos]
Diagnóstico, CID, laudo, medicação[Diagnóstico]
Datas que amarram o caso a uma pessoa[Data] ou só o mês
Empregador, escola, unidade de saúde[Instituição]
Nome de magistrado, servidor, advogado[Magistrado], [Servidor], [Advogado]

Duas regras que economizam retrabalho. Quando houver mais de uma pessoa do mesmo tipo, numere: [Parte 1], [Parte 2]. Sem isso o texto vira uma sopa em que ninguém entende quem fez o quê, e o resumo que voltar vai estar errado. E mantenha os colchetes: eles marcam visualmente o que foi trocado, o que faz a revisão render.

Os três erros que passam despercebidos

1. Replace All sem ler o resultado

Trocar "Silva" por "[Parte]" também transforma "Silvana" em "[Parte]na". E, pior que o estrago visível, é o que fica de fora: "Sr. S.", "o requerente Silva Neto", o sobrenome no meio de uma citação de outra peça. O Replace All faz o trabalho grosso. Depois dele, leia.

2. Os metadados do arquivo

Esse é o mais silencioso, porque o texto fica limpo e o arquivo não. Um .docx carrega autor, organização, comentários e histórico de revisões. Um PDF carrega autor e programa de origem. Um print carrega o nome de usuário na barra de título e, às vezes, a aba aberta ao lado.

A solução é de dez segundos: copie o texto limpo para um documento novo, em branco. Não salve uma cópia do original — cópia herda tudo.

3. Achar que resumir já anonimiza

Resumo não é anonimização, é compressão. "Só os fatos" costuma preservar exatamente a combinação que identifica: data, condição de saúde, vínculo, lugar. Se o material precisa ser limpo, ele é limpo antes de virar resumo — inclusive quando quem resume é você.

E se eu quiser usar IA para anonimizar?

Pode — com uma condição: nunca coloque o texto original em uma IA externa para anonimizar. Isso derrota o propósito. O que você pode fazer é usar um modelo local (offline) ou seguir o prompt abaixo — que funciona depois de você já ter feito a anonimização manual, como revisor:

Prompt de revisão (use só após anonimizar)

Revise o texto abaixo e aponte qualquer informação que ainda permita identificar a parte, testemunha ou terceiro. Considere: nome, CPF, RG, endereço, dados de saúde, filiação, biometria, número de processo, vara, nome de magistrado ou servidor. Se encontrar, sugira a substituição. Se estiver limpo, confirme.

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[cole o texto já anonimizado]

Quanto tempo isso leva de verdade

O endereço deste texto promete quatro minutos, e vale ser honesta sobre o que cabe neles. Quatro minutos é o tempo de uma peça curta, de duas a três páginas, na segunda ou terceira vez que você faz — quando a tabela já está aberta e você já sabe onde o dado costuma se esconder no seu tipo de acervo.

Na primeira vez leva mais, e é bom que leve: a primeira vez é a que ensina onde ficam os quase-identificadores do material com que você trabalha. Peça longa, com laudo anexo, não fecha em quatro minutos — e não deveria fechar. Aqui não tem promessa de velocidade: tem método que você repete até ficar rápido.

O que encurta de verdade não é digitar mais depressa. É o glossário do caso: assim que você definir [Parte 1], [Parte 2] e [Instituição] para um processo, guarde essa correspondência num arquivo separado, fora do prompt. Na próxima peça do mesmo caso, o passo 2 já está feito — e, de quebra, os rótulos batem entre uma peça e outra, o que evita que dois resumos do mesmo processo pareçam falar de gente diferente.

O que a anonimização não resolve

Ela reduz risco. Ela não cria autorização.

Peça anonimizada continua sendo material de trabalho, e quem define se ele pode ir para uma ferramenta é a política do seu órgão sobre uso de IA e tratamento de dado processual — que muda de tribunal para tribunal. A Resolução CNJ nº 615/2025 — no texto compilado, conferido em 13/08/2026 — estabelece o marco nacional e mantém a revisão humana dentro do fluxo; ela não substitui a regra interna, e não transforma nenhuma plataforma em ambiente aprovado.

Na prática, quatro perguntas antes de colar qualquer coisa, mesmo limpa: o meu órgão autoriza esta ferramenta? o dado é permitido? a finalidade é limitada? a revisão continua humana? Se alguma resposta for "acho que sim", a resposta é não.

Quando nem anonimizado vai

Existe material que não melhora com limpeza. Processo em segredo de justiça (CPC, art. 189), ato que envolve criança ou adolescente (ECA, art. 143), dado pessoal sensível na acepção da LGPD (Lei 13.709/2019, art. 5º, II) — nesses casos a pergunta não é "como eu limpo", é não vai. Nem resumido, nem "só os fatos", nem com o nome trocado.

A lista fechada do que não sai do gabinete está na peça 2.

Fontes normativas citadas: CPC art. 189 · ECA art. 143 · Lei 13.709/2019 (LGPD) art. 5º, II · Resolução CNJ nº 615/2025, no texto compilado — alterada pela Resolução CNJ nº 674, de 25 de março de 2026, que modificou apenas o art. 15, § 1º (composição do Comitê Nacional de Inteligência Artificial do Judiciário) e não altera os fundamentos de supervisão humana, proteção de dados e segredo de justiça citados aqui. Conferido em 13/08/2026. Em conteúdo que fala de norma, a data da consulta é parte da informação — e a política do seu órgão continua sendo indispensável.

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