Como padronizar instruções para IA no trabalho jurídico
Contexto, tarefa, formato, limite e conferência. Quatro dessas cinco partes não mudam de uma peça para outra — e é aí que mora o tempo que o improviso cobra.
O artigo anterior terminou com uma ação barata: quando um pedido finalmente funcionar, copie o que deu certo antes de fechar a janela. Este aqui transforma esse arquivo solto em formato.
Numa instrução para IA, quase tudo é fixo. O que muda de uma peça para outra é muito menos do que parece.
Essa é a ideia inteira. Se você separar a parte que se repete da parte que muda, escreve a fixa uma vez só e, no dia a dia, troca apenas duas ou três linhas. Não é um método novo para aprender: é a mesma lógica do modelo de despacho que você já usa.
As cinco partes de uma instrução
Toda instrução que se sustenta tem cinco partes. Elas não precisam de título nem de formatação bonita — precisam existir.
Contexto — quem lê e para quê
Uma ou duas linhas dizendo em que trabalho aquilo se encaixa e qual é a finalidade do texto. Não é apresentação pessoal: é a informação que muda o resultado.
O exemplo que mais rende no serviço judiciário: "o texto serve para instruir quem decide, não para convencer ninguém". Sem essa linha, a ferramenta tende a devolver material persuasivo — que é o padrão do que ela leu no mundo. É a diferença que o artigo sobre copiar conteúdo da advocacia detalha.
Muda quase nunca. Só muda se mudar o tipo de trabalho.
Tarefa — o verbo exato e o recorte
Esta é a parte que muda todo dia, e é a única que precisa mudar.
"Resumir" é ambíguo: resumir para quem, guardando o quê? "Listar os pedidos e o que foi decidido sobre cada um" não é ambíguo — tem verbo, objeto e recorte. A troca leva cinco segundos e elimina a primeira ida e volta.
Regra de bolso: se o pedido caberia igualzinho em duas tarefas diferentes, ele está vago demais.
Formato — a forma da casa
Seções, ordem, o que vai em tópico e o que vai corrido, tamanho aproximado. É a parte mais chata de escrever e a que mais economiza tempo, porque é exatamente o que a ferramenta não tem como adivinhar.
O padrão do seu setor não está em lugar nenhum que ela possa ler. Se você não entregar, ela devolve o formato médio da internet — e aí você reescreve a estrutura toda vez, que é o retrabalho mais caro dos três.
Só muda se o padrão do setor mudar.
Limite — o que ela não deve fazer
Quatro linhas que você escreve uma vez e não mexe mais:
- não afirmar nada que não esteja no material entregue
- não citar norma, súmula ou precedente sem indicar de onde saiu
- não concluir nem sugerir resultado
- quando faltar informação, dizer que falta em vez de preencher
A última é a mais importante e a menos óbvia. Sem ela, lacuna vira texto plausível — e texto plausível é justamente o que passa pela revisão corrida.
Conferência — pedir de um jeito que dê para conferir
Esta parte quase ninguém escreve, e ela é a que mais muda o trabalho depois.
Pedir que cada afirmação de fato venha acompanhada do trecho da fonte não melhora o texto — melhora a sua vida na hora de revisar. O primeiro critério da rubrica de revisão deixa de exigir que você procure a origem de cada frase: a origem já veio junto.
O mesmo vale para o resto: peça que os pontos incertos venham marcados, e a conferência começa pela lista deles em vez de começar pelo texto inteiro.
Quatro das cinco não mudam
Escrito assim, fica visível por que improvisar sai caro:
| Parte | Fixa ou variável | Quando muda |
|---|---|---|
| Contexto | fixa | se mudar o tipo de trabalho |
| Tarefa | variável | toda vez |
| Formato | fixa | se o padrão do setor mudar |
| Limite | fixa | praticamente nunca |
| Conferência | fixa | praticamente nunca |
Quem improvisa reescreve as cinco todo dia. Quem separou reescreve uma.
Como isso fica montado
Um exemplo inteiro, com material fictício, só para mostrar a forma. As quatro partes fixas ficam guardadas num arquivo; a segunda caixa é a única que você escreve no dia.
O texto serve para instruir quem decide, não para convencer ninguém. Escreva em tom neutro.
Formato: (1) o que foi pedido, em tópicos; (2) o que o material informa sobre cada pedido, em tópicos; (3) pontos que ficaram sem resposta, em lista. Sem introdução e sem fecho.
Limites: não afirme nada que não esteja no material entregue; não cite norma, súmula ou precedente sem indicar de onde saiu; não conclua nem sugira resultado; quando faltar informação, diga que falta em vez de preencher.
Conferência: cada afirmação de fato deve vir com o trecho do material de onde saiu. Marque com [INCERTO] tudo que não conseguir sustentar.
Tarefa: liste os pedidos formulados e o que o material informa sobre cada um.
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[cole aqui o material já anonimizado]
Repare no tamanho das duas. A base tem quatro parágrafos e não vai ser escrita de novo. A parte variável tem uma linha. Amanhã, com outra tarefa, muda só ela — e é por isso que o custo de ter método é pago uma vez.
E repare no efeito da última linha da base: o [INCERTO] transforma a conferência numa busca por marcador, em vez de uma releitura integral. É a mesma lógica de pedir o trecho da fonte junto — fazer a revisão caber no tempo que ela realmente tem, que costuma ser pouco.
Como montar o seu na primeira vez
Não comece de uma folha em branco — comece do que já funcionou:
- Pegue o último pedido que deu certo. Aquele que, depois de duas tentativas, voltou do jeito que você queria.
- Marque no texto qual pedaço era sobre aquela peça. Costuma ser uma frase. Todo o resto é fixo, e você acabou de descobrir isso sem esforço.
- Guarde o resto como base e deixe a frase variável marcada, para lembrar o que trocar.
Leva dez minutos e resolve a maior parte do problema. A primeira versão não precisa ficar boa — precisa existir, porque a partir dela você melhora por emenda, não por reinvenção.
Onde guardar
Num arquivo de texto. Não em ferramenta nova, não em sistema, não em nada que precise de senha ou de aprovação para existir.
E um por tipo de tarefa, não um universal. Instrução única que serve para tudo vira genérica, e genérica devolve resultado genérico. Três ou quatro arquivos curtos rendem mais que um longo.
Vale uma trava óbvia mas fácil de esquecer: a base é o texto da instrução, não o material de trabalho. Nada de dado de processo dentro do arquivo. O que pode e o que não pode sair está na peça 2.
O erro oposto: padronizar demais
Existe o excesso, e ele também custa.
Instrução que cresce sem parar engessa: quanto mais regra você empilha, mais o resultado converge para um texto morno que atende tudo e não serve direito para nada. Se a sua base passou de meia página, provavelmente tem ali regra que você escreveu uma vez por causa de um caso específico e nunca mais precisou.
E padrão que ninguém revisa vira dogma. A hora de mexer é quando o resultado mudar de qualidade — para melhor ou para pior. Fora isso, deixa quieto.
O que isso não resolve
- Não autoriza ferramenta nem dado. Instrução boa em ambiente não autorizado continua sendo uso não autorizado.
- Não dispensa a conferência. A parte 5 torna a revisão mais rápida; ela não substitui a revisão.
- Não conserta o que a ferramenta não sabe. Formato claro não vira conhecimento que não estava lá.
- Não promete acervo menor. O ganho é de consistência e de retrabalho, e é só isso que este espaço promete.
Este artigo trata de método de trabalho, não de norma. As referências normativas do projeto estão nas peças de segurança. Antes de qualquer uso de IA em material de trabalho, confira as regras do seu órgão sobre uso de inteligência artificial e tratamento de dado processual — elas mudam de tribunal para tribunal, e a responsabilidade nunca é da ferramenta.
📥 O que não entra na instrução nem no material
A lista fechada do que não cola no prompt + o método de anonimização + checklist para imprimir.
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