Como revisar uma minuta feita com IA: 5 critérios que continuam humanos
Método maior que paladar. Cinco critérios fixados antes de olhar o resultado — porque rubrica escrita depois de ver a minuta é rubrica contaminada.
"Ficou bom" não é um juízo. É uma sensação — e sensação não se compara entre duas minutas, nem entre duas ferramentas.
A cena é comum: você pede uma minuta a uma ferramenta de IA, lê o resultado, acha razoável e sente um desconforto que não sabe nomear. O texto está fluente. As frases encaixam. E mesmo assim tem alguma coisa que você não conferiu — só não sabe o quê.
Esse desconforto tem uma causa técnica: texto fluente engana a revisão. A leitura corre, os parágrafos fecham, e o olho aceita. O erro de um rascunho de IA quase nunca aparece como erro de escrita — aparece como uma afirmação bem construída que não tem lastro nenhum.
A resposta para isso não é ler com mais atenção. É parar de julgar por paladar e passar a julgar por critério. Este texto entrega a rubrica que eu vou usar daqui pra frente: as cinco perguntas, a escala de nota e as duas regras que derrubam uma minuta independentemente da pontuação.
Por que o critério vem antes
A regra que sustenta tudo o que vem abaixo: publique o critério antes de usar o critério.
Não é formalidade. Rubrica escrita depois de ver o resultado é rubrica contaminada. Quando você já leu a minuta e gostou, é fácil escolher, sem perceber, os critérios em que ela vai bem — e é igualmente fácil, quando não gostou, escolher os critérios em que ela vai mal. Nos dois casos você não avaliou nada: só justificou uma impressão que já tinha.
Fixar o critério antes resolve três coisas de uma vez. Torna duas minutas comparáveis, porque foram medidas pela mesma régua. Torna duas ferramentas comparáveis, que é a condição para o teste da peça 5 valer alguma coisa. E torna a sua própria decisão auditável: se alguém perguntar por que você aceitou aquele rascunho, existe resposta — e ela não é "me pareceu bom".
A rubrica: 5 critérios
A ordem não é aleatória. Os dois primeiros são os que pegam as falhas que a leitura corrida não pega. Os três últimos são os que decidem se aquilo economiza trabalho de verdade.
Fidelidade à fonte
Toda afirmação de fato na minuta está no material que você entregou? Sem fato novo, sem data que apareceu do nada, sem valor que ninguém informou, sem nome de parte que não existia.
Como conferir: passe frase a frase perguntando "de onde veio isto?". Se você não consegue apontar o trecho da fonte, o dado não existe até prova em contrário — mesmo que pareça plausível. Principalmente quando parece plausível.
Completude — o que ficou de fora
Esta é a falha silenciosa, e é a mais perigosa das cinco, porque não deixa marca no texto.
Uma ferramenta de IA é boa em executar e organizar, e fraca em desconfiar da própria fonte. Se o material que ela leu estava incompleto, ela relata com segurança o que leu — sem perguntar o que ficou de fora. O resultado é uma minuta coerente, bem escrita e parcial, que não tem nenhum sinal visível de que é parcial.
Como conferir: antes de mandar, escreva a lista dos pontos que a peça precisa cobrir. Depois compare item a item. Sem a lista feita antes, você vai conferir contra a memória — e a memória, depois de ler um texto convincente, já foi contaminada por ele.
Exatidão normativa
Cada lei, artigo, resolução, súmula ou precedente citado foi conferido na fonte oficial — e diz o que a minuta afirma que diz.
São duas checagens diferentes, e a segunda é a que costuma ser pulada. Existe uma falha específica de rascunho gerado por IA: a citação existe, o número está certo, e o conteúdo atribuído a ela não é o que está escrito lá. Conferir só se o artigo existe não pega esse caso.
Como conferir: abra a fonte oficial e leia o dispositivo. Anote a data da consulta — em matéria que muda, a data é parte da informação. Norma alterada depois da última vez que você olhou é uma armadilha comum.
Forma e aderência ao padrão
A peça tem a estrutura que aquele tipo de documento exige, na ordem que o seu setor usa? Relatório separado da fundamentação, fundamentação separada do dispositivo, ementa no padrão adotado, sem conclusão vazando para dentro do relatório.
Este é o critério mais objetivo dos cinco, e por isso o mais rápido de aplicar. Também é o que mais melhora quando você entrega o padrão junto do pedido, em vez de esperar que a ferramenta acerte sozinha o formato da casa.
Excesso de certeza
A minuta afirma como assentado aquilo que é controvertido? Rascunho de IA tende a soar resolvido: onde a matéria é dividida, ele escolhe um lado e escreve com a mesma firmeza que usaria num ponto pacífico — sem sinalizar que existe divergência.
É o oposto do critério 1. Lá o problema era o fato que não existe; aqui o fato existe e o grau de certeza está inflado. O texto não mente: ele arredonda.
Como conferir: procure as fórmulas de fechamento — "evidentemente", "não há dúvida", "é pacífico", "resta claro", "conforme entendimento consolidado". Cada uma é um lugar para perguntar: pacífico onde, e conferido quando? Se a resposta não estiver na fonte, o certo é rebaixar o tom — não apagar a frase.
Este critério protege principalmente quem assina. Texto que afirma demais compromete quem põe o nome embaixo, não quem gerou o rascunho.
Como pontuar
Cada critério recebe 0, 1 ou 2. Escala curta de propósito: escala longa devolve o paladar pela porta dos fundos, porque a diferença entre 6 e 7 numa escala de 10 é sensação de novo.
- 0 — falhou. Existe pelo menos um problema concreto que você consegue apontar com o dedo.
- 1 — passou com ressalva. Precisou de correção, mas a correção foi localizada.
- 2 — passou limpo. Nada a corrigir naquele critério.
Total de 0 a 10. E duas regras que valem mais que o total:
- Critérios 1 e 3 são eliminatórios. Zero em fidelidade à fonte ou em exatidão normativa reprova a minuta inteira, mesmo que os outros três somem 6. Uma peça bem estruturada com um precedente inventado não é uma peça 6 de 10 — é uma peça que não pode sair.
- O total não é nota de aprovação. É registro. Serve para comparar rodadas e ferramentas, não para autorizar a assinatura de ninguém.
Como usar sem virar burocracia
A rubrica inteira cabe num cartão. Na prática, o que muda na rotina são duas anotações — e as duas acontecem antes de olhar o resultado:
- a lista de pontos que a peça precisa cobrir (é ela que faz o critério 2 funcionar)
- o padrão de forma daquele tipo de documento no seu setor (é ele que faz o critério 4 ser objetivo)
Depois disso, a conferência é uma passada com cinco perguntas na cabeça, e não um formulário. Nas primeiras vezes leva mais tempo que a leitura solta que você fazia antes. Depois de algumas peças, leva menos — porque você para de reler procurando um incômodo sem nome e passa a procurar cinco coisas específicas.
E vale guardar as notas. Cinco rodadas anotadas dizem mais sobre uma ferramenta do que qualquer comparativo publicado por quem vende ela.
A conta que ninguém faz
Os cinco critérios julgam o rascunho. Falta uma conta que não é sobre o texto, e que decide se aquilo valeu: quanto trabalho humano sobrou depois de tudo conferido.
Um rascunho que chega em trinta segundos e exige quarenta minutos de conferência não é mais rápido que um rascunho seu de vinte minutos, que você já sabe onde revisar. O tempo de gerar não é o tempo do trabalho — o tempo do trabalho inclui a conferência, e é justamente a conferência que não dá para terceirizar.
Anote esse número junto das notas, mas fora da soma. Não é um sexto critério, porque não fala da qualidade da minuta: fala da decisão de usar a ferramenta naquela tarefa. E "não compensou nesta tarefa" é uma resposta legítima, não um fracasso.
O que a rubrica não faz
Ela mede a qualidade de um rascunho. Ela não resolve nada do que vem antes disso:
- Não autoriza o uso. Quem autoriza é a política do seu órgão sobre uso de IA e tratamento de dado processual — e isso muda de tribunal para tribunal.
- Não substitui a revisão humana, nem a assinatura de quem responde pela peça. Rubrica é instrumento de conferência, não delegação de responsabilidade.
- Não mede produtividade. A conta de custo de revisão, ali em cima, é outra coisa e fica fora da soma. Este espaço não promete acervo menor: prometer volume menor é vender exatamente a mentira que causa o adoecimento.
- Não torna o material seguro. Uma minuta com dado sigiloso continua com dado sigiloso, tenha tirado 10 ou 2.
Antes de testar qualquer coisa
Duas travas que vêm das peças anteriores e não são opcionais.
Teste com material fictício. Para comparar ferramentas, invente o caso — não empreste um real. É a única forma de testar à vontade sem transformar teste em vazamento. É assim que a peça 5 vai ser feita: um agravo fictício, o mesmo para todas.
Se for material de trabalho, ele passa antes pelas peças 2 e 3. O que não sai do gabinete de jeito nenhum está na lista fechada da peça 2; o que pode sair, depois de limpo, sai pelo método de anonimização da peça 3. E o que a norma nacional delimita está na peça 1.
A rubrica entra depois dessas três. Ela julga o rascunho — ela não julga se o rascunho podia ter sido pedido.
A próxima peça usa esta régua
Com os cinco critérios publicados, a comparação de ferramentas deixa de ser opinião. A peça 5 aplica exatamente esta rubrica a quatro IAs, no mesmo agravo fictício, com as notas de cada critério à mostra — sem link de afiliado e sem fixture real.
É por isso que o critério vem antes: quando o resultado sair, a régua já estará publicada, e você poderá conferir se eu apliquei ela direito.
Este texto trata de método de conferência, não de norma. As referências normativas do projeto estão nas peças 1, 2 e 3. Antes de qualquer uso de IA em material de trabalho, confira as regras do seu órgão sobre uso de inteligência artificial e tratamento de dado processual — a responsabilidade nunca é da ferramenta.
📥 O guia que vem antes desta rubrica
A lista fechada do que não cola no prompt + o método de anonimização + checklist para imprimir.
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